Seremos
Eliane Triska
Serei teu sutil encanto,
Como córrego em frêmito,
Sussurro quente e trêmulo,
Consagrado em solo santo.
Serás meu verso perfeito,
Dedilhado em lírica harpa,
Dançado na mais linda valsa
Do mais nobre sentimento.
Seremos almas em pétalas,
No formato do orvalho,
Cálido vigor do carvalho,
Vibrando apaixonadas.
E esse amor, chegado a tempo,
Desenhou em outra pauta,
Que nem mesmo a madrugada
Saberá contar ao vento.
No desfiladeiro
Rente à beira do senil desfiladeiro,
Contornando as cicatrizes da montanha,
Silenciosa, em suas curvas sem letreiro,
Peregrina misteriosa caravana.
Aonde vai? Qual o destino? Ninguém sabe.
Ninguém a vê. Ninguém fala, nem assunta.
Deambulam pensamentos como a ave.
Como a fome, engole o vento e tudo ajunta.
Livres ecos, nas sandálias já sem dó,
Pisam pedras, agitando o desespero,
Gritam em seco, replicado: Vivo só!
Obediente, a caravana segue a vida.
Faz de um passo uma chegada sem roteiro
E, chorando, faz do outro a despedida.
Sem me ver
Hoje me vi na novela.
Ria o dedo, com a ametista.
Salto, num pé. Uma artista,
Um olhar de passarela.
Hoje me vi na favela.
Um gole de trago. Bendito!
No passo, o maio ferido;
Que dirá na primavera!
Que seja a novela um ser,
Ser-vindo a quem não se via,
Quando a cortina descer
E na favela o morrer.
Aflita... Que fugidia,
A vida não me querer. |