LEMBRANÇAS
Ivanise Thereza Mantovani
Era uma escada
apoiada num barranco sem luxo.
Ela quinze degraus, eu dez anos.
Dia após dia subíamos e descíamos
eu e as formigas de bunda grande.
Essa escada, cansada,
tábua e cupim,
gostava demais de mim. Eu sabia.
Levava-me da rua
até a casa onde eu morava.
Casa simples, caiada,
que velha, ela também,
na escada se apoiava.
Um comboio de lesmas
fazia desenhos de prata
para meus olhos de criança.
Quando a primavera
deixava crescer os cabelos-de-anjo,
margaridas miudinhas
se misturavam à verde cabeleira,
e ela, a minha escada,
se permitia ao beijo
das borboletas azuis
que andavam por ali
em trêmula folia..
Minha escada então me convidava
a sentar e, juntas,
trocávamos idéias.
O sol, ternura e abraço, nos sorria.
E, ao invés de estudarmos matemática,
fazíamos poesia.
INOCÊNCIA
Tinha na alma a inocência
do azul-claro do mar.
Perfeita e intocada tulipa
no beiral de águas mansas
cobrindo pedras ingênuas.
Lábios em fuga, sem saber
do que fugia.
Calores percorriam a pele
desavisada.
Quando lenta a manhã chegava
deslizava em horas escorregadias.
Mas quando a noite acendia,
nas estrelas, a luz dos lampiões,
ela deitava no tosco leito
e ignorando pudores,
acariciava-se e desfalecia.
TAÇA
Na taça o veneno,
seiva e fel.
No corpo a malícia,
carícia e mel.
Ódio e amor
fornicando paixão.
Nos seios o beijo,
na boca o desejo
num mesmo refrão.
Na ampulheta vagarosa
no dia da vida
não foi parideira
e murchou como a rosa.
Ébria da mentira
que o vinho inebria
tornou-se amante
de longa espera.
Hoje é apatia,
quietude aderida
e ficou esquecida
num muro de hera.
A OUTRA
Quem é essa
que me sonda no espelho,
mostra uma nova ruga,
uma lágrima, um desmazelo
e se diz noda de mim.
Quem é essa
que se chama Maria
mas tece todas as dores
e arrepia meu pelo
quando invade o camarim.
Quem essa
que toma chá com fantasmas
e perambula insone
pelos corredores da casa.
Ela anarquizou minha vida
e desbotou meus cabelos
que tinham a cor do nanquim.
Também apagou meu sorriso,
Desenhou uma tristeza,
Expulsou minha vaidade,
Afugentou a beleza
E só de pura maldade
Diz que prepara meu fim.
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