ROMANCE
- MEMÓRIAS DE PEDRO MALACA
DEDICATÓRIA
Esta é uma
história de gente e lixo, gente e bicho juntos no lixo - gente bicho. E eu desejo
dedicá-la aos que são gente, isto é, aos que tem poder e comando. Poder e Comando de
Estado, Poder e Comando de Dinheiro e Patrimônio, para que se precatem. A miséria está
demais e a cultura universal, milenar, ensina que um dia os miseráveis se levantam e
levam tudo, a tudo destroem na avalanche. Dá para sentir que a violência crescente no
mundo inteiro, salvo a político-religiosa do Oriente - e ainda esta, é um pouco isso -
tem muito de sua origem na fome e na miséria, que se espalham e se generalizam nas
cidades grandes. Já César dizia: "Dai pão e circo ao povo". Vou condenar
o deboche, para gritar aos modernos césares: Dai trabalho ao povo, que isto
representa o pão, dai-lhe terra para a lavoura no campo, para o barraco na
cidade, que
isto representa grão e abrigo.
I - ONDE TUDO COMEÇA
Eu, Pedro Perpétuo
do Espírito Jovem, vulgo Pedro Malaca, aos nove dias do mês de outubro de
1992, nos setenta e dois anos de idade. Pedro, por vontade de minha avó,
homenagem ao seu ajudante de pedreiro que aos vinte e nove anos, por
disposição secreta do chaveiro do céu, comandando lá de cima as coisas de cá,
despencou do décimo andar do edifício onde trabalhava, sem seguro, sem
previdência, sem coisa nenhuma, deixando-a desamparada. Perpétuo do Espírito
Jovem, para gozo de minha mãe, que achava bonito o Perpétuo e sendo Espírito
Santo, no último momento refletiu que Santo é nome de negro e o seu filho, eu,
havia nascido quase branco, ou quase branco ela me supunha. Daí que mudou
para este incomum Espírito Jovem. Na idade em que me encontro, o nome passa a ser
simpático e até me inspira autoconfiança; na mocidade eu não dava importância
a isso, era o meu nome e me bastava. O Malaca vem da infância de rua e
me pegou a vida inteira, porque me agrada e eu o declino com satisfação.
Nasceu na molecagem, não está no registro. No dicionário também não está,
eu olhei, mas, na língua do povo, tem o mesmo sentido de peteleco, isto
é, dedada na orelha do menino quando o companheiro o surpreende descuidado. E,
se não dá briga na hora, deixa o certo desejo de cobrança: - tu me
pagas, cabra! No seu próximo descuido é a hora, malaca nele. Pois bem, porque
eu tenho as orelhas grandes - e isto é bom, uma vez que segundo o dito
popular representa longevidade -, o pessoal me pegava mais vezes. Acabei ficando
Pedro Malaca. Gosto do nome, tenho-o como um bom apelido. Essas coisas
de criança são assim, a gente lembra como se fossem de ontem. Parece que
me vejo, neste instante mesmo, no bonde misto do Retiro: gente, porco,
galinha, carga de toda diversidade, eu, mamãe, meus pequenos irmãos, nossas
trouxas de roupa. E onde está hoje o bonde misto, no qual o pobre tinha um
preço mais baixo e podia transportar os seus animais destinados a venda na
feira livre, e os seus badulaques? Adeus bonde misto, largas portas sempre
abertas, sem bancos, todo mundo em pé
agarrado nas alças lá em cima ou nas paredes, as crianças presas as pernas
mais próximas. Adeus bonde, que já não existes mais e bem podias estar
servindo de transporte de massa, não poluente e a preço muito inferior ao dos
maltratados ônibus que expelem óxido de carbono de uma ponta a outra da cidade
e dão mais greve que circulação, sem contar que não há misto. Adeus trem da
Leste Brasileiro, começando da Calçada aos subúrbios para continuar sertão
adentro pelas caatingas até Juazeiro, estrada tantas vezes percorrida por mim
na mocidade, máquina fotográfica a tiracolo, alguns livros debaixo do braço e
muita paixão pela vida, muita vontade de ser e de viver.
Lá vai o trem pelos caminhos do agreste sertanejo, "roque-roque,
foque-foque, - eu-chego-já, eu-chego-já, pode-esperá, eu-chego-já". Gente
sentada, gente em pé, mais em pé do que sentada, adultos e crianças, homens e
mulheres. Os homens fumam e conversam, conversam e fumam, cada qual falando mais alto para
sobrepor a voz ao ruído das rodas nos trilhos, "roque- roque,
foque-foque" e ao vozerio vizinho. A paisagem, um ambiente só, imutável,
permanente: árvores secas, folhas no chão, aqui, ali, uma rês esquelética,
mostrando os ossos por dentro do couro ressequido, adiante um esqueleto de animal,
os urubus rondando, bicando o que ainda se preste ao seu apetite.
O restaurante. Aqui, os de melhor situação, caixeiros viajantes (a maioria
são representantes de laboratórios, deve ser um negócio bom e rendoso, vender remédio,
cuja matéria prima por excelência é água destilada), empregados públicos,
fazendeiros, comerciantes. Também aqui os passageiros fumam. Muito. Mais até
que nas classes, e bebem cerveja. Intoxicam fartamente os pulmões, engolindo
poeira de chão e poeira de cigarro, benza-os Deus. Falam aos gritos e todos ao
mesmo tempo praticamente as mesmas coisas em todas as rodas: É a seca que mata
os animais e acaba com tudo, são os negócios parados, os comerciantes sem
dinheiro para saldar os compromissos, porque as pessoas falta dinheiro para comprar.
Não há o produto local a vender - o boi, o bode, o algodão, o feijão. Mais
se fala, mais se entristece; mais se entristece, mais se bebe; mais se bebe,
mais se fuma; mais se fuma mais se intoxica; mais se intoxica, mais encurta-se a vida. E o
trem sem parar: - "pode-esperá, eu-chego-já. Eu-chego-já, eu-chego-já". De
vez em quando o comboio vê, na sua corrida, e rápido deixa para trás, uma
família de retirantes. Trouxa na cabeça, uma criança no colo andam os mais
jovens, meninos quase arrastados pelo braço, gemendo e chorando, os velhos
capengando, a miséria estampada em cada rosto. São os que fogem da seca,
mudando-se sem saber para onde, pela frente sempre a mesma penúria. Dói-me a
paisagem, dói-me o estirão de miseráveis na estrada, dói-me a minha
própria solidão. Como que me vejo entre aquela gente, moído de miséria,
comendo lixo como foi algumas vezes no meu tempo de menino. Sem dúvida, em um
magote de desgraçados igual aqueles, teria descido o célebre Gaguinho de minha
mãe. Sem dúvida! Medito sobre uma reportagem enfocando a desgraça sertaneja e
vejo-a descrita em matérias anteriores. Seria uma repetição de outras
repetições, trabalhadas no correr de uma vida, para leitura de poucos e
desinteresse de quantos tem os meios de solucionar, ou ao menos, amenizar toda
aquela miséria secular. Procuro ler. O sacolejar do trem reduz a
capacidade de leitura. Ora as letras parece que pulam com o trem, ora a vista
se desloca mais para cima ou mais para
baixo, desisto da leitura. Não sou de muita conversa nem de muitos amigos, costumo
viajar horas e horas silencioso e pensativo. Meu assunto se isola dos mais, sou
o único profissional de imprensa. Cansado fecho os olhos, tento dormir. Não
consigo. O pensamento corre como as rodas da viatura sobre os trilhos, só o
compasso é diferente e eu não consigo ordená-lo. Canta um poema? Nem isso!
Até então, não tinha inclinação para a poesia. Jamais arrumara dois
versos. Conta uma história? Conta muitas histórias, mas sem ritmo, sem
sentido, embaraçadas, recheadas de dúvidas e temores, de dores e tristezas. Era uma
vez um menino que nasceu para ser pivete e uma alma santa o conduziu nos
caminhos do bem, ensinou a viver como gente, enquanto milhares de outros lá
ficaram para se fazerem bandidos ou mendigos... Era uma vez uma menina triste
que viveu no lixão da Canabrava, de onde saiu por graça de um menino levado da
breca, para ser lavadeira... Era uma vez uma pobre mulher sem profissão ou
ocupação rendosa, que perdeu o marido num acidente de trabalho no qual era um
simples avulso, anônimo, sem fichamento e até sem folha de salário, e assim,
sem amparo legal... Era uma vez um amontoado de bichos e gente, urubus e
cachorros vadios, jumentos velhos, crianças e anciões vivendo do lixo, uns
morrendo hoje, outros esperando sua vez amanha ou depois, logo mais, uns
chegando outros saindo, as centenas, depois aos milhares, já agora sempre
chegando e não saindo ninguém, senão no Rabecão, para a vala do cemitério das
Quintas, onde o chão os engolia sem nome... Era uma vez, era uma vez, era uma
vez...
Enfim, na estação da Calçada, na cidade para o compromisso
mais doloroso dos meus 72 anos de vida. Pegar um táxi rumo ao
cemitério, correr, que o tempo se esgotava...
João Justiniano da Fonseca |