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ROMANCE

CRÔNICA DOS DEUSES

  Um projeto antigo

          De muitos anos, de moço, pensava em algum trabalho em cima do Antigo Testamento. A idéia nasceu, lá um dia, em momento de leitura bíblica. Caí, por acaso, na história de Jacó. Cheguei a Jacó e Labão, ao pastoreio, a Raquel e Lia. Despertei para o fato de que Camões não foi, para o seu soneto célebre, ao fim do texto bíblico. E compus o soneto

ASTÚCIA DE JACÓ

Sete anos por Raquel e sete mais por Lia,
de quebra, em cada leito uma franzina escrava,
assim viveu Jacó, e muito bem vivia,
na casa de Labão, de quem pastoreava.

Porque vivia bem e ainda melhor servia,
seis anos mais ficou - e tempo lhe sobrava.
O que era branco e preto, a Labão pertencia,
sendo o malhado seu, e o resto que pintava.

Mas, por astúcias tais, que ninguém entendia,
os rebanhos malhava, e pintava, e malhava,
até que branco e preto em pouco não nascia.

Labão que tudo olhava e já o seu não via,
os rebanhos contava, e contava, e contava...
Era tudo malhado, a Jacó pertencia!

          O grilo permaneceu na mente e no correr do tempo produzi outros sonetos sobre a temática. Quando li Saramago no seu Evangelho Segundo Jesus Cristo, aí ocorreu a idéia do romance. Poderia passear pelo Antigo Testamento e ou pelo Novo. Percorri personagens, quis Pedro, não encontrei muito ou a inspiração não me ajudou - Pedro continua ainda em minha cabeça e não duvido que saia algum dia, sou um homem que acredita na eternidade e a espera tranqüilamente - . Com Pedro viriam os discípulos, talvez Judas também - o coitado em quem o destino pôs a pecha e a forca. Sim, o destino, um tinha de ser, foi Judas o escalado.
          Ocorreram-me os profetas e o melhor que se introduziu foi Moisés, eu o acolhi, ainda que badalado demais, usado e ré-usado. É assim mesmo, cada qual faça a sua parte. Aqui, Moisés fundamentalmente não é muito, preferi o conjunto e partindo do personagem central voltei a Abraão, passei por Jacó - o Israel homem, retornei a Moisés até chegar a Israel povo, ao Êxodo, sem deixar de rever Adão e Eva, a serpente, o fruto proibido. Acabei descobrindo que o fruto não foi a maça, mas a uva, a uva fermentada, feita no saboroso vinho, manso e embriagador. A embriaguez tudo pode.
          Mas não esqueci nem poderia esquecer o Deus Criador produzindo a grande poesia que é o Seu mundo, aliás, que são os Seus mundos. Caim e Abel, Noé, entraram de quebra. Quase todo o mundo bíblico.