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Romance

Grilagem 

     Eu queria uma trilogia da terra. E aqui está ela concluída. Primeiro "CACIMBA SECA" - herói o vaqueiro. O vaqueiro, a caçimba, gado magro e a ração de macambira e mandacaru. Dureza de vida, crueldade de sofrimento. Segundo TERRA INUNDADA - herói o lavrador de beira rio no São Francisco. A CHESF construindo suas barragens, desalojando e abandonando o explorado ribeirinho. Crueza da vida, desespero a dor de ver tudo seu perdido.
     Agora GRILAGEM - herói o catingueiro tirador de mel e caçador de peba. Procura a abelha na caatinga de umburana em umburana. Caça o peba, o gato do mato, o veado, a asa-branca. Planta o seu roçado de quando chove, se chove. Cria meia dúzia de cabras e abelhas em dezenas de cortiços. Produz rústicos artefatos de madeira, couro e fibra de caroá. É auto-suficiente e produz até, para o consumo da casa, o sal da terra, a vela de cera e o sabão de decoada.
     Vem o grileiro. Os seus homens chegam e medem as terras. Léguas e léguas de chão devoluto do estado são passadas nos aparelhos de agrimensura e é sua a terra. Quem possui e trabalha o seu pedaço de chão no espaço medido, não importa há quanto tempo aí viva e sofra, é posto para fora como invasor. Pois sim, invasor. E o pior, o danado, é que o grileiro, por artes essas e aquelas de prova fraudulenta garante que é sua a propriedade e, para desocupá-la dos "invasores" tem o mandado da Justiça e o apoio da Polícia. Vida cão, só o diabo agüenta. O diabo por que mata e morre sem pensar em respeito a ninguém.

O Grileiro

     O grileiro eu conheço, é um criminoso impune, um gatuno de espécie a mais abjeta e ignara, que prova em seu favor e em seu favor reúne a polícia que ajuda e a justiça que ampara.
Chega e contempla a terra, e o rio, o rancho, a igara sem que suspeite alguém que ele morda e gatune, olha a cultura, ao dono o titulo repara a que lhe obriga a lei - a que ninguém é imune.
     Corre ao cartório, espia, arruma, retifica. Com o titulo na mão o registro pratica e eis que o direito é seu - é sua a propriedade.
     Vai ao juiz, requer. A polícia a mandado de reintegrar na posse o cidadão esbulhado. E cai o Pano... A cena a lei e a sociedade...

Joao Justiniano da Fonseca.