CARNA
QUARTA FEIRA DE CINZAS
(Manhã de 27-02-06)
Salvador. Farol
da Barra. Resto de folia carnavalesca. O tempo pegando fogo na madrugada de Quarta Feira
de Cinzas. Gente louca na rua, no trio elétrico, nos camarotes. Na rua sobretudo. E a
música rolando, rolando a latinha de cerveja em milhares de mãos. Pulo, canto, gritos,
desespero.
O Farol lá em cima olhando, entre curioso e pasmado, gozando a
folia. Madrugada próxima do raiar da aurora. Um casal de foliões. Depois de pular,
cantar, gritar e beber a noite inteira, desce à praia. Lá em cima o farol olhando.
Lançam-se ao mar, mergulham, erguem-se, mergulham... O farol olhando.
Em pouco mais estão desvestidos completamente. E transam sob as
águas do mar. Transam mais... O moço sai correndo para o alto, chega à banca mais
próxima, toma duas cervejas e volta correndo para a amada. Pelado, pelado. Não pagou.
Pelado, correndo de volta à praia. O barraqueiro chiou. Veio o policial e informou-se da
ocorrência. Viu, à distância, os dois, deitados na areia chupando a cervejinha da lata.
Foi lá. O moço o avistou e correu. Ficou só a moça deitada como estava, pelada como
estava, chupando a cerveja como estava. Nem se mexeu. O praça olhou-a, aquele material
todo na forma como Deus o botou no mundo, quis falar, quis ir... Vacilou. Correu atrás do
moço, alcançou-o e ia levando em cana. A moça gritou:
Leva ele não qui tá pelado e fica feio. Bota eu em cana,
bota eu em cana, que tou vestidinha da brisa da madrugada...
O praça vacilou mais uma vez e o moço escapou. Aí voltou-se
ele para a moça e gritou:
Então é você mesmo, tá presa, pro alto, pro alto...
Ei! Disse que tá vestida... Tá nada, tá nuínha em pelo... Mais essa, meu Deus, que qui
faço agora? A moça tá pelada, como é qui faço?
Decidiu-se, tirou a túnica e cobriu-a, tocou para o alto. O
povão da folia, ao ver o praça meio nu e a moça coberta com a sua túnica, gritou a mil
bocas:
Olha lá, olha lá, o soldado transando...
Veio o capitão e encanou os dois. A jovem jogou fora o agasalho, colou
o corpo nu ao busto do soldado e este acolheu o desafio.
Capitão, ela berrou, Carnaval é a alegria do povo! Deixa
a gente!
O capitão fez um ar de riso, fechou os olhos e foi adiante. Lá
em cima o farol gozando a folia. O sol já estava do lado de fora do céu e os sinos
marcavam o chamamento para a Missa de Cinzas: "Lembra-te homem, que és pó e ao pó
reverterás."